domingo, 7 de agosto de 2011

 

 

 

 

Intervenção de João Oliveira na Assembleia de República


Problemas na justiça - Degradação da democracia e da realização do Estado de Direito democrático



Senhor Presidente,
Senhoras e senhores Deputados,

A situação que se vive na justiça portuguesa é uma triste imagem da realidade de declínio nacional e degradação das instituições democráticas que se vem agravando de forma acentuada nos últimos anos.
Os cidadãos encaram o sistema de justiça com cada vez maior desconfiança e vêem-se crescentemente impedidos de recorrer aos tribunais para exercer os seus direitos por impossibilidade de suportarem os custos com a justiça.
Os magistrados são permanentemente sujeitos a um fogo cerrado que amplia todo e qualquer vício ou erro individual mas ignora as constantes tentativas de limitação da sua autonomia ou independência e finge não ver a partidarização da orgânica judiciária.
Há por todo o país milhares de advogados com milhões de euros de honorários em dívida por serviços prestados no âmbito do Sistema de Acesso ao Direito que ameaçam abandonar o sistema, deixando de garantir uma função essencial para que os cidadãos de menores recursos económicos possam aceder ao Direito e aos tribunais.
As condições de realização da investigação criminal e os meios que lhe são destinados não garantem a sua eficácia e sacrificam as condições socio-profissionais dos agentes incumbidos de a concretizar.
A informatização dos tribunais e do sistema de justiça, concebida muitas vezes de forma apressada e irreflectida mais a pensar na projecção mediática dos membros do Governo que na melhoria do sistema, continua a ser fonte de constrangimentos e de insegurança no trabalho dos operadores judiciários e de outros profissionais jurídicos.
Estes deviam ser sinais de alarme suficientemente preocupantes e graves para que também em matéria de política de justiça se concretizasse uma profunda ruptura com as opções que vêm sendo feitas.
No entanto, a atitude daqueles que chegados ou vindos do poder se recusam a discutir o passado e avaliar políticas perpetua e agrava invariavelmente o rumo de comprometimento do funcionamento da justiça e dos tribunais.
Os espíritos ditos reformistas dos responsáveis governamentais rapidamente se transformam em assombrações conservadoras das mesmas velhas políticas que diziam querer superar. Os discursos governamentais cheios de vontades novas e ambições invejáveis acabam irremediavelmente contrariados pelos compromissos inconfessáveis que continuam a moldar as políticas concretas.
A justiça portuguesa é cada vez mais uma justiça de classe que permite a impunidade dos poderosos, que protege os grandes interesses económicos, que é ineficaz no combate à corrupção e inacessível aos cidadãos para exercício dos seus direitos.
Esse é o resultado das concepções neo-liberais que também em matéria de política de justiça vão fazendo avanços.
Não é nem mais nem menos que isso, aliás, o que se prevê em matéria de justiça no Memorando de submissão do país aos ditames do FMI e da UE.
Ali está expressa com toda a clareza a perspectiva neo-liberal que concebe a justiça e os tribunais como uma longa manus do poder económico destinada a satisfazer e proteger os seus interesses e, se possível, como mais uma área de negócio a explorar.
A perspectiva do Memorando é afinal a do aprofundamento da errada orientação que os governos portugueses têm dado à política de justiça no sentido da sua privatização e mercantilização e que nos conduziu, por exemplo, à situação que hoje conhecemos em matéria de arrendamento de imóveis pelo Ministério da Justiça e de gestão do parque prisional.
Durante anos o PCP confrontou o Governo, Orçamento de Estado após Orçamento de Estado, com os milhões de euros gastos pelo Ministério da Justiça em arrendamento de imóveis em prejuízo do erário público e do bom funcionamento da justiça.
Durante anos, Governo após Governo, ouvimos as mais variadas e descabidas justificações para a irracionalidade daqueles gordos negócios de arrendamentos feitos à custa do Estado.
Durante anos propusémos que aquela irracionalidade fosse substituída por uma política criteriosa de investimento público que permitisse a poupança dos recursos do Estado mas foi sempre mais forte a perspectiva de quem defende que a justiça pode e deve ser um negócio.
Na gestão do parque prisional, a orientação mercantilista fez-se igualmente sentir mas aqui com consequências que podem vir a ser ainda mais graves.
Em 2008 o anterior Governo abriu portas ao negócio no parque prisional com a apresentação de um programa de reforma que previa até 2013 a alienação e encerramento de alguns dos estabelecimentos prisionais que se encontravam em funcionamento e a construção de 3 novos estabelecimentos.
Passados três anos e vários percalços nos concursos para a construção dos novos estabelecimentos, o Estado alienou estabelecimentos prisionais que continua a ocupar e pelos quais passou a ter que pagar renda, reduzindo a capacidade de reclusão e provocando a sobrelotação dos estabelecimentos em funcionamento.
Para além dos óbvios prejuízos financeiros que daqui resultam e de mais um chorudo negócio de arrendamento à custa do Estado, esta situação encerra uma outra preocupação para a qual chamamos desde já a atenção da maioria e do Governo.
A situação de sobrelotação dos estabelecimentos prisionais gera deficientes condições de alojamento para os reclusos mas também dificuldades de segurança e degradação das condições de trabalho, em particular para o efectivo do Corpo da Guarda Prisional.
Considerando que, ao contrário do que estava previsto, não se iniciou o curso de formação de novos Guardas Prisionais, e que em 2011 e 2012 haverá aposentações em número significativo daqueles guardas, torna-se urgente que o Governo tome medidas no sentido de evitar a ruptura do sistema prisional.
Senhora Presidente,
Senhoras e senhores Deputados,
Com a degradação do sistema de justiça escancaram-se as portas à lei do mais forte, satisfazendo os interesses daqueles que com melhores condições económicas estarão também em melhores condições de impor as suas regras.
O triunfo dessas concepções neo-liberais em matéria de política de justiça significaria portanto a degradação da democracia.
Os problemas que o sistema de justiça enfrenta não podem e não devem ser confinados à sua dimensão económica ou financeira. Eles são um problema da democracia e da realização do Estado de Direito democrático.
O compromisso que o PCP assume é, por isso, o de contribuir para a resolução dos problemas da justiça com a perspectiva do aprofundamento e da consolidação do regime democrático, é o compromisso com a Constituição de Abril.
Disse.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Nota do Gabinete de Imprensa do PCP

Sobre o anunciado «Programa de Emergência Social»



1. O anuncio pelo Governo de um denominado Programa de Emergência Social constitui um acto de indisfarçável cinismo político destinado a procurar ocultar o caminho de empobrecimento a que, deliberadamente, está a conduzir milhões de portugueses. Um programa que é, em si mesmo, a confissão de uma política orientada para acentuar as desigualdades à conta das quais pretendem retirar dividendos políticos e criar uma rede de dependência social em si mesmo atentatória da dignidade dos trabalhadores e do povo.
2. Alertando para acções assistenciais suportadas na mais absoluta discricionariedade e em precárias condições de segurança e saúde públicas (de que é exemplo a intenção de cedência de medicamentos para lá dos prazos legais hoje em vigor), o PCP sublinha que a resposta que a dignidade humana impõe é a da ruptura com o actual rumo de ruína e decadência nacionais adoptados pelo Governo e a concretização de uma política de promoção de emprego, de valorização de salários e pensões, de efectivo apoio e protecção social.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

 

 

 

Intervenção de Agostinho Lopes na Assembleia de República

 

Fim das Golden Shares - Traição aos interesses nacionais




O que dizer do processo de liquidação das Golden Shares? Que o Governo do capital faz o que o capital manda fazer! Que a Troika manda e o Governo PSD/CDS e o PS, obedecem!
O Preâmbulo do fim dos direitos especiais do Estado português, é notável pela sua concisão e rigor.
“Contexto”: “o escrupuloso cumprimento dos objectivos e das medidas previstas no Programa de Assistência Financeira”!
A justificação: “justifica-se, no momento presente, proceder à sua revogação”!
Três notas.
1.A CURTA HISTÓRIA DE UMA MENTIRA SISTEMÁTICA
O deslizamento estatutário do comando estratégico de empresas estratégicas é uma das mentiras sistemáticas da política de privatizações. De empresas públicas, passaram a sociedades anónimas de capitais públicos! Mas não havia problema, eram os comunistas sempre no contra…De sociedades anónimas de capitais públicos passaram a empresas SA com participação privada minoritária! Não havia problema, o Estado era maioritário, estava assegurado o comando! Estes comunistas, sempre a verem o pior…De participação minoritária, os capitais privados passaram a maioritários, ou a 100%! Perda de comando público? Que ideia, lá estavam as golden shares a garantir o comando estratégico! A garantia dos tais centros de decisão nacional…A tinta, que correu sobre o assunto! As declarações solenes! Os fóruns e as conferências… A mentira e a fraude no completo despudor do frete ao capital!
2.UM CRIME ECONÓMICO CONTRA O ESTADO PORTUGUÊS
Só o Sr. Ministro das Finanças é que não enxerga! Mas não é por defeito ou ingenuidade. Mesmo alguns dos que aceitam as privatizações, consideram a dádiva das golden shares, um bónus aos accionistas. A PT vendida por 3 300€! O Comendador Berardo em 2007, na PT, ofereceu 200 milhões de euros pelas golden shares! O Governo oferece o valor estratégico que essas acções representam, sem sequer o tentar vender! As acções na privatização dessas empresas tiveram um preço abaixo do seu valor, exactamente por causa das golden shares! O Governo, pelo menos, deveria procurar recuperar esse abatimento…Disse um dos novos Administradores da CGD (Álvaro Nascimento): a golden share “tem valor”. Não o negociar, “significa transferir esse valor para os accionistas e o Estado está a prescindir desse direito”!
O PCP está contra a sua eliminação, com ou sem transacção comercial! Mas não deixamos de denunciar, como disse Octávio Teixeira ”É um inadmissível crime de muitos milhões contra os interesses financeiros do Estado”!
3. UMA TRAIÇÃO AOS INTERESSES NACIONAIS
Os outros Estados da Europa são estúpidos! Nós, Governo PSD/CDS, é que somos inteligentes. O representante do FMI e patrão da Troika, o dinamarquês Poul Thomson é um bom benemérito. Um bom conselheiro, só que não toma para a sua terra, os bons conselhos que nos vem dar. Mas já se sabe, os nórdicos e outros, são outra gente… e estes do Sul, uns atrasados, pigs. Veja-se lá: até têm golden shares nas empresas de energia, telecomunicações e etc. Nós na Dinamarca não. Temos a DONG ENERGY, a maior empresa do sector de energia do país, com presença no petróleo, gás e electricidade, com uma quota de mercado superior à da GALP e EDP, com 77% de capital do Estado dinamarquês. (Manuel Pinho dixit). Nós na Alemanha não, diz a SrªMerkel. Temos que manter a Volkswagen com comando alemão! Já avisamos a Comissão Europeia que não nos chateiem… Nós na Europa, na França, no Reino Unido, na Finlândia, na Bélgica, etc podemos e devemos poder manter direitos especiais em empresas da energia, defesa, telecomunicações, automóvel, e até no açúcar! Vocês, temos pena, mas têm que privatizar e largar de borla as ditas GOLDEN SHARES! (são pobres não podem ter luxos de ricos!) A Dong Energy, a EDF, a Total, a RWE e outros matilhas esfaimadas estão à espera…Se fossem gregos vendiam umas ilhas…
O Governo PSD/CDS não quer que haja dúvidas. Quer mesmo, “de forma decidida e convicta”, é um desejo profundo, o capital estrangeiro nestas empresas estratégicas. Não só lhes quer vender o que resta da presença do Estado português, como lhes escancara a porta, oferecendo as golden shares de desconto! Isto, enquanto não somos obrigados a vender a pedido e com comprador predeterminado, como sucedeu na Grécia, em que a OTE, a PT lá do sítio, foi obrigada a vender à Deutsche Telekon, que ficou com 40% do capital e o Estado grego 10%! (Não é por acaso que há quem pense que o melhor são os processos de privatização serem conduzidos por Bruxelas! Eles sabem o que é melhor para os protectorados…)
Isto tem um nome: traição aos interesses nacionais!
É um atentado à Soberania Nacional, entregar o comando estratégico de empresas estratégicas a estrangeiros, empresas com evidentes dimensões de segurança pública e segurança nacional! Empresas como a EDP, a GALP, a REN, a PT, a ANA, os CTT, a CP, as AdP! Com o fim da golden share, a PT passa a ser uma das poucas operadoras europeias sem controlo do Estado!
Mas como se tratam de direitos inalienáveis, soberanos e constitucionais do povo português, queremos afirmá-lo firme e claramente: estes negócios são actos nulos e a todo o tempo anuláveis! Nunca poderão ser considerados legítimos!

domingo, 31 de julho de 2011

Conferência de Imprensa, João Frazão, Comissão Política do Comité Central do PCP , Lisboa

Declaração sobre os primeiros 30 dias de aplicação do programa do Governo



Trinta dias de aplicação do programa do Governo PSD/CDS bastam para confirmar as piores expectativas.
Este Governo confirma-se como um executivo ao serviço do grande capital, empenhado em concretizar ponto a ponto o Pacto de agressão e submissão ao povo e ao país que o PS, o PSD e o CDS assinaram com a Troika FMI/UE/BCE.
Este é um Governo determinado em prosseguir a ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e do povo, que não tem qualquer pejo em executar mesmo medidas que não constam do seu Programa, com o objectivo de transferir riqueza para os grupos económicos à custa da exploração e do saque dos rendimentos dos trabalhadores e dos sectores não monopolistas. Tal é a situação do roubo que o Governo decretou a 50% do Subsídio de Natal, acima do Salário Mínimo Nacional, aos trabalhadores e aos pensionistas, roubo que é tanto mais escandaloso quando deixa de fora os titulares de rendimentos de capital e quando Passos Coelho prometeu, solenemente, na Campanha Eleitoral, que não aumentaria os impostos e não tocaria no Subsídio de Natal.
Este é um governo que se prepara, e pré-anuncia, aumentos nos medicamentos, nas taxas moderadoras, noutros serviços públicos essenciais, nos preços da água, da electricidade, entre outros, que a irem por diante arrastarão milhares de portugueses para a miséria .
O Governo PSD/CDS comporta-se, à semelhança do que acontecia com o Governo PS/Sócrates, como o representante dos interesses do capital, submetendo-se a eles e aprofundando a promiscuidade entre o poder económico e o poder político. O anúncio de um ou dois orçamentos rectificativos, com o objectivo de incluir nas contas públicas os apoios milionários a atribuir à Banca, seja para a recapitalização que os banqueiros não querem suportar, seja para colmatar os efeitos da gestão fraudulenta como se verificou no BPN, aumentando assim a dívida pública, é, em si mesmo, bastante esclarecedor.
Prepara privatizações à medida desses interesses, organizadas por figuras suas representantes, como se vislumbra na composição do novo Conselho de Administração da CGD, onde pontuam figuras ligadas aos sectores dos Seguros e da Saúde privada, áreas de negócio que o Governo prevê privatizar na Caixa. Inflige sacrifícios incalculáveis aos trabalhadores e à população, com aumentos dos transportes públicos, que chegam a ultrapassar os 25% (os maiores de que há memória e que se somam aos aumentos do início do ano), aumentando assim a qualquer custo as receitas dessas empresas, com o objectivo de preparar a sua privatização e entregá-las aos mesmos grupos (Barraqueiro, Trandev, entre outros) para quem, já hoje, o Estado transfere milhões de euros de indemnizações compensatórias, que nega às empresas públicas.
Uma vez mais, a actuação do governo está a confirmar que a dívida e o défice são apenas pretexto para cumprir uma velha agenda dos grupos económicos e financeiros. As alterações à legislação laboral, que não têm nenhum impacto nas contas públicas, visam isso sim embaratecer e facilitar os despedimentos. Prosseguindo o compromisso já assumido pelo PS, a que a UGT deu o aval, o Governo PSD/CDS não só responde aos velhos anseios do patronato, como lhes promete ainda mais para um futuro próximo. De facto, a diminuição do valor das indemnizações por despedimento, seja ela qual for - para 20, 10, ou menos dias por ano de trabalho - corresponderia à banalização dos despedimentos, dando pretexto às empresas para se livrarem, a baixo custo, dos trabalhadores com melhores salários e direitos, contratando, eventualmente, trabalhadores precários e mal pagos para os substituir.
O Governo PSD/CDS comporta-se como um adversário do interesse nacional que, sistematicamente, põe em causa. Tal é o caso da alienação das golden share de diversas empresas, a começar pela PT. Os direitos especiais que o Estado detém (legitimamente e como acontece em quase todos os países da União Europeia) valiam, do ponto de vista estritamente económico, muitos milhões de euros e, do ponto de vista estratégico, eram de valor incalculável. Foi uma decisão ilegítima, pelo que, no debate agendado para a próxima quarta-feira na Assembleia da República, o PCP vai propor a Cessação da Vigência do Decreto Lei que extingue as golden share do Estado na PT, EDP e GALP, e votará contra a eliminação, proposta pelo Governo para discussão no mesmo dia, dos direitos especiais do Estado em processos de privatização, até aqui prevista na respectiva lei.
Também a decisão de aumentar brutalmente o preço dos transportes públicos, contribuirá para o aumento do transporte individual, com o consequente  agravamento da factura energética e do endividamento do país.
Este Governo coloca ainda em causa o interesse nacional, com a entrega, ao desbarato das principais empresas do sector público e participações do Estado (GALP, EDP, REN, ANA, CGD, TAP, CP, Águas de Portugal, Cimpor, Taguspark), ao sector privado, que acabarão por cair sob controlo do capital estrangeiro, nomeadamente francês ou alemão.
O Governo PSD/CDS prossegue o rumo de subserviência face aos chamados mercados, aos interesses dos megabancos europeus e da banca nacional, cedendo sempre à especulação, e facilitando o engordar de lucros e regalias. Num momento em que são pedidos sacrifícios a milhões de portugueses, ficámos a saber, nos últimos dias, que os 25 mais ricos do país, no ano da crise, aumentaram as suas fortunas em 17%. 25 fortunas que somam mais de 10% do PIB Nacional, cerca de 17,1 mil milhões de euros.
Os resultados do primeiro semestre deste ano, revelados pelos principais grupos económicos contrastam com a crise e as dificuldades que percorrem o país. Com crescimentos que chegam a ultrapassar os 100%, os grupos económicos, - que, por decisão do Governo do PS, primeiro e agora do PSD/CDS, estão isentos de contribuir para a resolução dos problemas nacionais - ostentam lucros de centenas de milhões de euros. A Corticeira Amorim, SGPS, o Grupo Jerónimo Martins, e a Sonaecom, viram os seus lucros crescer 20,3%; 40% e 62% respectivamente. Entre os principais bancos, o BPI e o BCP fecharam o semestre, respectivamente, com 70 milhões e 100 milhões de euros de lucros. A EDP Renováveis duplicou os seus lucros para 90 milhões de euros e a EDP aumentou em 8%, para 609 milhões de euros! A Prossegur aumentou os lucros em 77,5%, a Portucel em 8%, a Mediacapital em 18%. A GALP apresentou lucros de 111 milhões de euros.
O Governo PSD/CDS usa e abusa da mentira insistindo na técnica da falácia e das meias verdades para justificar as suas opções. Foi o desvio colossal, usado como justificação para o roubo do subsídio de Natal, que afinal dias depois já não o era. Foi a tributação de rendimentos de capital que depois não se confirmou. É a mistificação que os rendimentos de capital não são tocados na sobretaxa de 3,5%, para não prejudicar a poupança. É a fantasiosa distribuição dos sacrifícios para todos, que depois não se confirma em nenhuma das medidas tomadas. É a facilitação dos despedimentos que teria como objectivo, imagine-se, o aumento do emprego.
Trinta dias depois do início da aplicação do programa do Governo, o PCP afirma que o caminho que este Governo escolheu, com o qual o PS está profundamente comprometido, e que conta com o silêncio cúmplice ou com o apoio explícito do Presidente da República, é o mesmo dos últimos trinta e cinco anos, que trouxeram o país à situação de desastre em que se encontra. Trinta dias depois, o PCP reafirma que o prosseguimento da política de direita só poderá ter como consequências o aprofundamento da crise económica e social, a ruína de milhares de pequenos e médios empresários, a retracção do consumo, a recessão da economia, o aumento do desemprego, o aumento da pobreza e da miséria, o agravamento dos défices estruturais e da dependência externa, o afundamento do país e a progressiva perda da soberania nacional.
E essa política, que cria dificuldades a milhões de portugueses, só pode ter como resposta a mobilização dos trabalhadores e das populações para impedir a sua concretização. O PCP, ao mesmo tempo que apela à intensificação do protesto e da luta, saúda vivamente as acções já promovidas pela CGTP-IN, em que se destaca a concentração frente à Assembleia da República, realizada na passada quinta feira, no momento em que se discutia a proposta do Governo de alteração à legislação laboral, bem como as diversas acções realizadas pelos trabalhadores em empresas, locais de trabalho e sectores, por outras camadas sociais e pelas populações, em defesa dos serviços públicos.
É exactamente com este sentido que o PCP hoje aqui reafirma que nem este nem nenhum outro Governo poderia contar ou contará com o apoio do PCP para a execução destas políticas, e para apoiar alterações ao Orçamento de Estado que visam tão somente, como afirmou o Ministro das Finanças, permitir a recapitalização dos bancos até a um máximo de 12 mil milhões de euros e, ao mesmo tempo, acomodar os 35 mil milhões de euros que o Estado oferece em garantias à banca para esta emitir dívida para se financiar.
Cumprindo os seus compromissos com o povo português, o PCP está a apresentar, na Assembleia da República um conjunto de propostas alternativas para a resolução dos problemas do país. Porque é possível outro caminho.
É possível um caminho que aposte na produção nacional. Que valorize o trabalho e os trabalhadores, designadamente por via do aumento dos salários e das pensões. Que avance com a proposta de renegociação da dívida pública. Que valorize os serviços públicos e as funções sociais do Estado. Força determinante na oposição à política de direita, anunciamos hoje a realização, durante o mês de Agosto de uma iniciativa do PCP, em todo o país, de contacto, mobilização e esclarecimento dos trabalhadores e das populações, de denúncia da política do Governo ao serviço dos grupos económicos e financeiros, com incidência particular no combate às alterações à legislação laboral e de afirmação das propostas e projecto do PCP.

sábado, 30 de julho de 2011

Nota do Gabinete de Imprensa do PCP

Nova administração da CGD insere-se na privatização e desmantelamento do banco público



Face à designação pelo Governo PSD/CDS de uma nova administração do Grupo Caixa Geral de Depósitos, decidida nesta semana, o PCP considera o seguinte:
1. A nomeação de uma nova administração do Grupo Caixa Geral de Depósitos, quer pela sua composição, quer pela estrutura agora definida, corresponde aos objectivos impostos pela troika e assumidos por PSD, CDS e PS: de privatização das empresas seguradoras do Grupo – Fidelidade, Bonança e outras –, responsáveis por 44% da actividade seguradora em Portugal; de redução da actividade da CGD no plano internacional; de venda de importantes participações da Caixa num conjunto de empresas estratégicas nacionais – PT, EDP, REN, Cimpor, Águas de Portugal, GALP, Taguspark, BCP e BPN, entre outras - que colocam em risco a existência e o papel do banco público e põem em causa instrumentos de intervenção do Estado na economia nacional.
2. Ao contrário do que a demagógica propaganda do Governo tem vindo a afirmar quanto à redução de cargos nas empresas públicas, esta nomeação, para lá de aumentar significativamente o número de administradores - correspondendo à distribuição de alguns cargos por «boys» do PSD e do CDS/PP – visa, pelos nomes que foram indicados, colocar à frente do banco público representantes directos dos interesses de alguns dos principais grupos económicos e financeiros do país. Vindos directamente de grupos financeiros, de influentes escritórios de advogados, de consórcios privados no sector da saúde, os nomes escolhidos confirmam um percurso que une PS, PSD e CDS na crescente promiscuidade e subordinação do poder político ao poder económico.
3. Com esta nomeação está escolhida a equipa que na administração da CGD dará continuidade e aprofundará uma gestão do banco público que em vez da promoção e do apoio à actividade económica, da garantia do acesso ao crédito por parte da população, de apoio ao investimento público e à actividade produtiva, se fixará como pedra angular do criminoso processo de privatizações e saque dos recursos públicos e dos escandalosos apoios à banca privada que têm vindo a ser concretizados.
4. Num momento em que o Governo exige e impõe inaceitáveis sacrifícios à população para satisfazer os interesses do capital, designadamente do sector financeiro, o PCP reafirma a necessidade de um outro rumo, de uma política patriótica e de esquerda que, no plano imediato, garanta: o reforço do sector público financeiro – banca e seguros – designadamente da CGD; o apuramento da acção fraudulenta levada a cabo no BPN, das suas consequências para o erário público e a sua não privatização; a imposição de uma taxa efectiva de IRC de 25% sobre a banca; uma política de acesso ao crédito, designadamente por parte das PME's, que estimule a actividade económica e apoie milhões de portugueses perante o sufoco a que estão sujeitos pelos juros dos empréstimos à habitação.
5. Uma política que considere o acesso ao crédito como um serviço público, para além de defender o papel e o carácter público de todo o grupo CGD cuja única forma de estar ao serviço do país é por via da recuperação para as mãos do Estado do sector financeiro em Portugal.

domingo, 24 de julho de 2011

Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral do PCP, Águeda, Comício

PCP apela à luta contra as alterações à lei laboral


Camaradas:
O governo mudou, mas tal como prevíamos, a política segue o mesmo rumo que tem conduzido o país ao declínio e à contínua degradação da vida do nosso povo.
O governo mudou, mas não mudaram os hipócritas fundamentos, nem os falsos pretextos para continuar o processo de aprofundamento da exploração dos trabalhadores e de rapina sobre os recursos nacionais.
O governo mudou, mas tal como no passado com Sócrates e com Durão, para falar só dos mais próximos, a primeira medida tomada foi para fazer exactamente o contrário do que haviam prometido e anunciado – o roubo de metade do subsídio de Natal, com mais um imposto extraordinário sobre os rendimentos do trabalho.
Juraram que não, que não tocariam no subsídio de Natal, mas em escassas semanas deram o dito por não dito e, esgrimindo os mais cínicos argumentos, carregaram novamente e apenas sobre o trabalho, deixando de fora os rendimentos de capital – os dividendos de acções e os lucros das empresas e as grandes fortunas.
Se era já uma profunda injustiça esta penalização suplementar dos trabalhadores e dos reformados, a decisão de exceptuar neste imposto os rendimentos dos que ganham milhões é não apenas um acto de extrema perversidade, mas um claro indicativo da natureza viciosa das políticas que PSD e CDS-PP estão já a executar.
Está aqui mais uma vez bem patente neste imposto desnecessário e injusto a falsidade do argumento do imprescindível esforço nacional de todos para vencer a crise e da chamada equidade das medidas de austeridade que têm sido tomadas e que estão a ser tomadas.
A mesma falsidade, os mesmos critérios, as mesmas opções políticas que presidiram à elaboração do pacto da ingerência externa assinado pelo PS, PSD e CDS com a União Europeia e o FMI e igualmente ao Programa do novo Governo que o assumiu por inteiro e que servem a oligarquia económica e financeira que domina o país.
Esse desastroso e ilegítimo pacto de agressão, com severas medidas de austeridade para o povo e de venda ao desbarato do património do país, que o Programa do novo Governo ampliou com o objectivo de levar mais longe a ofensiva contra os interesses populares.
Um Pacto e um Programa que, a serem concretizados, não apenas conduzirão ao agravamento brutal da vida dos trabalhadores e das outras camadas populares, como condenarão o país à recessão, ao declínio e ao desastre.
Tínhamos dito e prevenido que a política de direita, seja ela executada pelo PS, pelo PSD ou pelo CDS e agora exacerbada pelas medidas do Pacto do União Europeia/BCE e FMI, não resolveria os problemas nacionais, apenas agravaria a vida dos portugueses e, na verdade, ainda agora começaram e já se vê o caminho que leva o país e a vida dos portugueses, particularmente aqueles que vivem do seu trabalho e de uma reforma.
Se com o Pacto da troika da ingerência a recessão económica e o desemprego assumiam uma dimensão preocupante, como os próprios o admitiam, com este governo e as medidas já tomadas é mais recessão em cima da grave recessão prevista e mais desemprego em cima da elevada taxa de desemprego existente e esperada.
É já o agravamento de todos os problemas que se perspectiva com a política do Pacto e com a política e as medidas do governo do PSD/CDS. Prometem a recuperação económica para 2013, mas todos os indicativos vão no sentido contrário.
Mudaram os executores mas o país permanece enredado no círculo vicioso da dependência em relação aos grandes interesses económicos nacionais e estrangeiros que têm condenado o país à ruína e os trabalhadores e o povo ao desemprego, ao trabalho precário, à perda continua do seu poder de compra e cada vez mais portugueses à pobreza e à miséria.
As medidas de agravamento sucedem-se umas atrás das outras. Elas são um autêntico assalto ao bolso dos trabalhadores e das populações. Depois do roubo do subsídio de Natal anunciam agora um colossal aumento de 15% em média dos transportes públicos. Aqui está mais uma medida prevista no pacto das troikas que os senhores do governo e os senhores do PS esconderam do povo e do país durante a campanha eleitoral.
Podem continuar a falar da legitimidade reforçada deste governo e da sua política que os portugueses não tardarão a reagir à enorme trapaça que, por omissão, PS, PSD e CDS levaram ao engano muitos milhares de portugueses.
Milhares de portugueses que vão agora confrontar-se com a violência destes aumentos brutais com que não contavam e que se irão traduzir numa redução significativa do valor real do seu salário. Alguns terão, certamente, dificuldades em pagar o transporte para ir trabalhar. E porquê este aumento brutal? Simplesmente para criar condições à privatização das empresas públicas de transporte!
Não há salário, nem reforma que aguente este aumento sistemático de impostos, de transportes, de energia, de bens e serviços essenciais, dos medicamentos, de juros na habitação e muito menos aguentam aqueles que são empurrados para o desemprego ou vivem de um trabalho precário, mal remunerado e que são uma grande parte dos trabalhadores, nomeadamente jovens.
Esta semana, com uma urgência desmedida e atropelando prazos previstos na Lei sobre a discussão pública, marcaram para o próximo dia 28 o debate na generalidade da primeira iniciativa legislativa apresentada pelo Governo do pacote de alterações às leis laborais previstas Pacto. Dando seguimento às propostas do anterior governo do PS não perderam tempo para prosseguir a sanha persecutória e revanchista contra os trabalhadores portugueses.
Pretendem com esta primeira proposta criar as condições para os despedimentos mais fáceis e mais baratos. Uma inaceitável proposta de redução de 30 para 20 dias do valor da indemnização por despedimento e de limitação a 12 meses do valor máximo dessa indemnização. Uma proposta ainda em aberto, nomeadamente no que diz respeita ao Fundo de compensação, ficando a incógnita se serão os trabalhadores a pagar parte do seu próprio despedimento.
Este é um primeiro passo desse diabólico plano da troika da ingerência e dos partidos da submissão que acordaram ainda no seu sinistro memorando o alargamento das possibilidades de despedimento por “justa causa”; a flexibilização do horário de trabalho por via do “banco de horas”, a redução do valor pago pelas horas extraordinárias e o ataque à contratação colectiva e ao papel dos sindicatos na negociação, entre outras.
Com estas alterações às leis laborais, o Governo e os partidos da troika pretendem pôr todos os trabalhadores em situação de precariedade para os tratarem como material descartável e continuarem a escalada de redução das suas remunerações, como o evidencia a evolução do número de trabalhadores com o salário mínimo, que duplicou nos anos de governo do PS.
Todas estas propostas não resolvem nem o problema da dívida, nem do défice, nem nenhum dos problemas nacionais, visam apenas o aumento da exploração do trabalho.
Não é com mais precariedade e com salários mais baixos que se desenvolve o país. É com emprego com direitos, com a valorização dos salários, com a estabilidade dos vínculos que se garante e constrói um país desenvolvido e de progresso, que rejeite o estafado modelo de baixos salários.
Pode este Governo vir com a conversa fiada do apoio às famílias, mas precisam de explicar como pretendem apoiar as famílias, permitindo que um trabalhador seja facilmente despedido perdendo a fonte do seu sustento ou possibilitando que se deixe de pagar horas extraordinárias ou ainda pressionando no sentido do rebaixamento dos salários.
Esta ofensiva visando a anulação dos direitos dos trabalhadores e de ataque aos rendimentos do trabalho não pode ficar sem resposta, quer no plano institucional, quer no plano da luta de massas. E se há quem pense que os trabalhadores e povo estão condenados assistir de braços cruzados à destruição das suas vidas, é necessário que se lhes recorde que com outros governos que se julgavam estar seguros de pedra e cal, não só foi possível interromper os seus planos, como derrotá-los.
Estas primeiras medidas no plano social, a que se juntam outras já tomadas no domínio económico, são, sem dúvida, uma pequena amostra do vasto plano de ataque aos interesses populares que o actual Governo tem em curso com a complacência e o apoio do PS, submetido que está aos compromissos com a troika estrangeira. De facto, o programa que o Governo do PSD e CDS apresenta assume-se como uma verdadeira declaração de guerra aos trabalhadores e ao povo.
Um programa que promove a exploração do trabalho, corta nos salários, nas pensões e nos apoios sociais e no próprio sistema de segurança social. Um programa que visa o aumento brutal dos impostos sobre a habitação e o consumo. Um programa que avança com um conjunto de privatizações de empresas e serviços públicos, ampliando a entrega da riqueza nacional e do controle da nossa economia aos grandes grupos económicos.
Com este programa, a palavra de ordem do Governo é entregar ao desbarato empresas lucrativas, que em muitos casos constituem verdadeiros monopólios naturais ou que prestam serviços públicos essenciais. E o primeiro exemplo da entrega ao desbarato foi dado com a eliminação das Golden Shares na PT, GALP e EDP, entregando de borla os direitos especiais do Estado aos accionistas privados destas empresas.
A alienação destas acções douradas cujo valor se estima em muitos milhões de euros é um acto de gestão danosa contrária aos interesses nacionais. É a confirmação de completa submissão por parte do poder político aos grandes poderes económicos, aos quais se dá de mão beijada o completo controlo dos sectores estratégicos da nossa economia
Pela via de privatizações ou pela via de diminuição de direitos aí os temos também a pretender garantir uma maior fatia de sectores sociais para o negócio privado. É a entrega de hospitais e centros de saúde. É o prosseguimento da destruição da escola pública, justificada com a mistificadora retórica neo-liberal da “liberdade de escolha” que só a tem quem tem dinheiro para a pagar.
Nos seus objectivos está a transformação do Estado de Abril, garante e protector de direitos, num Estado assistencialista e residual nas suas funções sociais e económicas. Querem transformar os direitos próprios de cada português à saúde, à educação, ao apoio social numa política de caridade pública e privada, de estigmatização da pobreza e dos mais desfavorecidos.
Camaradas:
Dizem que estas medidas e o Pacto de agressão que assinaram eram inevitáveis por causa da dívida e para sossegar os mercados.
Em relação à acalmia dos mercados a resposta foi dada pela Moody´s ao colocar Portugal no lixo, apesar do pacto da intervenção externa e da atitude obediente e servil do Governo português com o seu propósito de dobrar a parada dos sacrifícios aos trabalhadores e ao povo.
E em relação à dívida? Quem pode de boa fé acreditar que o problema se resolverá seguindo o mesmo caminho, as mesmas receitas, as mesmas políticas que levaram à sua colossal dimensão e que são, no essencial, as soluções da troika e do Governo?
Não! Não se resolverão nem com as orientações do novo Governo, nem com as medidas impostas pela troika do FMI/BCE/UE!
Como há muito denunciamos o endividamento do país é a consequência mais visível da política de desastre nacional que PS, PSD e CDS impuseram nos últimos 35 anos. É a consequência da desindustrialização, do abandono da agricultura e das pescas, de privatizações, da financeirização da economia, da submissão às imposições da UE e do grande capital nacional e estrangeiro.
Um processo que se acentuou por via da adesão ao euro, das políticas restritivas impostas e pelas irrealistas regras da União Económica e Monetária, que continuam! É consequência igualmente da transferência para o Estado e para os contribuintes dos prejuízos do sector financeiro e que tem no BPN o mais vivo exemplo da má gestão e da delapidação do património do país, cuja privatização conheceu um novo avanço esta semana.
Conhecem-se as responsabilidades do Governo PS que decidiu intervir no BPN e deixar de fora um vasto património do grupo SLN. Conhecem-se as posições dos outros partidos da troika.
A sua estratégia foi sempre clara: transferir para o Estado as consequências das fraudes e crimes de gestores, banqueiros e outros amigos que ao longo de anos se aproveitaram do BPN, para voltar a entregar o banco, limpo, a um qualquer grupo privado, como agora está acontecer. A ideia era e é muito simples: nacionalizar os prejuízos, privatizar os lucros!
Foi com esse objectivo que agiu o governo do PS e é com esse objectivo que age agora o Governo do PSD/CDS ao tentar vender o BPN de qualquer maneira, sem qualquer preço base.
O valor dos prejuízos que o país já pagou pelo BPN é de 1 800 milhões, mas é bem possível que o valor final suba bem acima dos 5000 milhões se atendermos às garantias que o Estado continua a dar à Caixa para emprestar ao BPN e agora também às empresas criadas para receber o seu lixo.
A solução podia também hoje ser outra.
O BPN tem 1600 trabalhadores e mais de 230 balcões. Recuperado o BPN devia ser um novo banco público vocacionado para áreas específicas, com potencial para poder pagar ao Estado – a todos nós – os prejuízos que os partidos da troika transferiram e querem continuar a transferir para o bolso dos portugueses. Mas em vez disso são mais uns milhões que se esvaem em benefício dos grandes grupos económicos.
Foi por tudo isto que a dívida cresceu desmesuradamente e não, como querem fazer crer, por “o povo viver acima das suas possibilidades” como sistematicamente insinuam os responsáveis pela crise e o poder que os serve.
Camaradas:
Com esta política, com o Pacto e as medidas previstas é o afundar do país e a vida dos portugueses atolada no pântano. Cada dia que passa com este governo, com esta política é tempo perdido na via da solução dos problemas nacionais.
A presente situação do país, com o prosseguimento da destruição do tecido produtivo, da estagnação e recessão económicas, mas também com o alastramento do desemprego e de agravamento das condições de vida, torna ainda mais urgente e indispensável uma ruptura com o actual rumo da vida nacional e a concretização de uma política patriótica e de esquerda capaz de dar resposta aos problemas do país.
Rejeitar o programa ilegítimo de submissão externa, renegociar a dívida pública, defender a produção nacional e uma justa distribuição da riqueza, continua a constituir a resposta patriótica e de esquerda de que o país precisa.
Uma renegociação da dívida compatível com uma estratégia de estabilização financeira sustentável, com o crescimento económico, o equilíbrio das contas públicas e o emprego.
Uma política patriótica e de esquerda que permita potenciar a produção nacional, que valorize a agricultura e as pescas, promova um programa de industrialização do país, valorize o mercado interno com a indispensável elevação dos salários, pensões de reforma e rendimentos da população, reforce o investimento público orientado para o crescimento económico, defenda e reforce o sector empresarial do Estado nos sectores básicos e estratégicos e apoie as micro, pequenas e médias empresas designadamente por via do controlo dos custos dos principais factores de produção e do financiamento público.
Uma política patriótica e de esquerda capaz de tomar as medidas de política fiscal que se impõem para fazer pagar mais a quem mais tem e mais ganha.
Em relação á solução do problema da dívida e do serviço da dívida, hoje uma questão central e de tanta importância para encetar um outro rumo para o país, vimos como reagiram PS, PSD e CDS à nossa proposta pioneira para a renegociação da dívida externa portuguesa debatida esta semana na Assembleia da República. Vimos como reiterada e irresponsavelmente foi rejeitada por esses mesmos partidos, na base do estafado argumento da sua impossibilidade e da sua contraproducencia.
Entretanto o que vimos no dia seguinte na Reunião Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da Zona Euro? Vimos a Cimeira de Chefes de Estado a decidir uma renegociação encapotada, pondo a nu, ao contrário do que sistematicamente foram negando, que a renegociação da dívida é não só possível como inevitável. De facto, as decisões adoptadas na Cimeira são uma confissão de que as propostas do PCP para a renegociação da dívida são um caminho forçoso e para nós necessário, para salvaguardar os interesses do país e dos portugueses. Não naqueles termos concretos e com os conteúdos que foram acordados, que não são a mudança que a situação impõe para dar resposta aos problemas dos trabalhadores e dos povos da Europa.
As decisões tomadas, forçadas pelo desastre a que foi conduzida a Grécia e para que estão a ser encaminhados outros países da Europa, designadamente Portugal, são uma resposta ditada não pela necessidade de resolver os problemas dos povos, mas para garantir os interesse do capital financeiro e das principais potencias europeias. Decisões que vão no sentido do agravamento das limitações da soberania dos Estados, de insistência no caminho do retrocesso social, de declínio económico e nos draconianos programas de austeridade. De facto, a redução das taxas de juro e do alargamento dos prazos para Portugal pagar a dívida mantendo o programa de agressão e submissão com o seu vasto pacote de medidas contra o país, significa, para lá do reconhecimento da impossibilidade de aplicar os termos anteriormente acordados desse programa – como PCP desde o início alertou –, uma forma de globalmente promover a continuação do saque dos recursos nacionais, à custa do agravamento da exploração e do comprometimento do futuro do país.
Ao contrário, aquilo que se impõe e que o PCP propõe é uma renegociação da dívida pública nos prazos, nos juros e nos montantes, liberta dos brutais condicionamentos impostos pela troika. As medidas anunciadas significam que o país continuará sujeito à depredação dos seus recursos e o povo português a enormes sacrifícios, desde logo pelo valor do aumento global dos juros do empréstimo que implica com o novo prazo. Um serviço da dívida que – num quadro de recessão económica prolongada em que o país se encontra – para além de inaceitável se revelará impagável.
O processo de concentração e centralização de poder económico e político desencadeado em nome do combate à crise, as políticas contidas na “governação económica” e no “Pacto para o Euro mais” e os chamados pacotes de resgate financeiro não só não resolveram qualquer dos problemas económicos e financeiros no espaço da Zona Euro, como os aprofundaram vertiginosamente.
Por mais que o governo português e as potências da União Europeia queiram esconder, a resposta aos gravíssimos problemas exige, entre outras medidas: o fim da liberalização dos movimentos de capitais, dos paraísos fiscais e o efectivo combate à especulação; a baixa da taxa de referência do BCE; o fim dos mercados secundários e dos seus títulos especulativos; a alteração dos objectivos e funcionamento do BCE; a substituição do Pacto de Estabilidade por um programa de emprego e desenvolvimento económico, numa rápida e sólida estratégia para a criação de emprego e aumento do poder de compra dos trabalhadores e dos povos.
Camaradas:
O conjunto das extensas e graves medidas que o Governo pretende aprovar no imediato e nos próximos meses, exige que nos preparemos para uma luta que pode ser prolongada e em muitas frentes. É isso que se impõe fazer, assegurando uma forte intervenção no plano da acção política e da luta de massas, porque só a luta pode conter e derrotar os desígnios dos que apostam no aprofundamento da exploração do trabalho e na degradação das condições de vida do povo.
Luta de massas que constitui na actual situação a resposta necessária e determinante contra a agressão a que os trabalhadores, o povo e o país estão sujeitos e é o factor essencial de construção de um Portugal de justiça e de progresso.
A ofensiva que aí está, bem patente nas primeiras medidas do novo Governo, precisa de ser confrontada com a luta e a determinação dos trabalhadores e das massas populares no imediato.
É preciso fazer frente e fazer frente desde já! Fazer frente às medidas e a um governo que tem pressa no ataque aos direitos e às condições de vida do povo. Fazer frente com as massas, dinamizando a sua luta, pelo aumento dos salários, em defesa dos horários de trabalho e da exigência da sua redução, no combate à precariedade, pelo direito ao subsidio de desemprego e pela exigência de emprego, na defesa da segurança social.
Uma luta que é preciso alargar a amplas camadas da população contra as privatizações, a extinção dos serviços públicos, a defesa do Serviço Nacional de Saúde e da Escola Pública, a garantia de um sistema de transportes públicos e o combate ao aumento dos preços.
Neste momento difícil, o PCP dirige-se aos trabalhadores, aos jovens, ao povo português reafirmando a importância da acção e da sua luta na defesa do regime democrático de Abril e dos direitos sociais, económicos e culturais do nosso povo. Acção e luta que exigem um partido reforçado, mais forte com uma intervenção diversificada capaz de responder às exigências da hora presente.
Uma intervenção à altura deste Partido que este ano está a comemorar 90 anos de vida. Deste Partido que nasceu, vive e projecta o seu futuro sempre a pensar servir os trabalhadores e o nosso povo. Que esteve sempre presente nos momentos mais difíceis ao lado dos trabalhadores e do povo travando os combates necessários. É com essa perspectiva que aqui estamos com a determinação, a firmeza, a mesma disponibilidade combativa de sempre deste Partido Comunista Português.
São grandes perigos e ameaças que pesam sobre os trabalhadores, o nosso povo e o próprio regime democrático de Abril e que exigem um Partido cada vez mais preparado, mais forte, mais activo, mais interventivo, ainda mais ligado aos problemas e aos trabalhadores, capaz de dinamizar e dar um novo ímpeto à luta.
Tempos em que os comunistas são chamados a redobrar o trabalho para cumprir o seu insubstituível papel ao lado dos trabalhadores e do povo, combatendo a exploração, as injustiças, as desigualdades, mas também a resignação, dinamizando a resistência e a luta.
Temos um Partido como nenhum outro, com uma história, força, valores e projecto sem igual.
Os tempos que vivemos exigem muita coragem, mas coragem foi o que nunca faltou a este Partido Comunista Português, a este grande colectivo, aos militantes do Partido e da Juventude Comunista Portuguesa.
É com essa coragem e com a confiança que ela nos dá que vamos em frente com a luta pela democracia avançada, por um Portugal de progresso, tendo sempre no horizonte a perspectiva do socialismo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Conferência de Imprensa, João Ferreira, Deputado ao Parlamento Europeu

Sobre as conclusões da Cimeira dos Países da Zona Euro



Forçados pelo desastre a que foi conduzida a Grécia e para que estão a ser encaminhados outros países da Europa, designadamente Portugal e a par do risco de alastramento do incumprimento à Itália e à Espanha, a Reunião Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da Zona Euro de ontem tomou decisões que constituem um novo e mais grave passo no sentido da limitação da soberania dos Estados, uma resposta no sentido da garantia dos interesses do capital financeiro e das principais potências europeias, um factor de agravamento da situação do país e de limitação ao seu desenvolvimento e progresso.
1. As decisões adoptadas são uma confissão de que as propostas do PCP (reiterada e irresponsavelmente rejeitadas por PSD,CDS e PS) para a renegociação da dívida são um caminho inevitável, como é testemunhado por esta “renegociação” encapotada e que põe a nu, ao contrário do que sistematicamente foram negando, que a renegociação da dívida é não só possível como inevitável. No entanto, o conteúdo e os termos das decisões tomadas não são a mudança que a situação impõe para dar resposta aos problemas dos trabalhadores e dos povos da Europa, mas a insistência no caminho do retrocesso social e de declínio económico.
2. A redução das taxas de juro, a par do alargamento dos prazos para Portugal, mantendo o conjunto das opções políticas contidas no programa de agressão e submissão assumido por PS, PSD e CDS com a UE e o FMI, significa, para lá do reconhecimento da impossibilidade de aplicar os termos anteriormente acordados desse programa - como PCP desde o início alertou –, uma forma de globalmente promover a continuação do saque dos recursos nacionais, à custa do agravamento da exploração e do comprometimento do futuro do país.
3. Ao contrário daquilo que se impõe e que o PCP propõe - uma renegociação da dívida pública nos prazos, nos juros e nos montantes, liberta dos brutais condicionamentos impostos pela troika, as medidas anunciadas significam que o país continuará sujeito à depredação dos seus recursos e o povo português a enormes sacrifícios.
Nas condições ontem renegociadas, pelo mesmo empréstimo contraído com a UE e o FMI, Portugal vai pagar uma taxa de juro anual de 3,5% por um período de 15 anos. O que significa que, em vez dos 30,4 milhões de euros que Portugal teria de pagar de juros por este empréstimo, terá agora de pagar 40,95 mil milhões de euros de juros no novo prazo fixado. Uma decisão que, podendo reduzir o montante anual dos juros a pagar nos próximos anos, agrava de facto em 10 mil milhões de euros o valor global dos juros que serão pagos à custa da sangria dos recursos nacionais, do aumento da exploração e de um serviço da dívida que – num quadro de recessão económica prolongada em que o país se encontra – para além de inaceitável se revelará impagável.
4. O PCP sublinha que, contrariando as tentativas da parte do governo PSD/CDS de iludir os portugueses, quanto ao significado destas decisões, na verdade, aquilo que este se prepara para concretizar nos próximos meses, com o apoio do PS, é o conjunto de medidas previstas no acordo com a UE/FMI: a facilitação e embaratecimento dos despedimentos; ataque aos salários e pensões; o roubo no 13º mês; agravamento dos preços da energia, dos medicamentos e dos transportes; privatização de empresas e sectores públicos estratégicos; transferência directa de milhões de euros do Estado para a banca. Isto é, o aprofundamento da acumulação e concentração de capital por parte dos grupos económicos e financeiros e a garantia dos interesses dos credores, à custa das condições de vida do povo e da própria actividade económica.
5. O PCP não pode deixar de sublinhar o quanto revelador é, sobre quem efectivamente manda na União Europeia e os interesses que esta serve, o facto desta Reunião Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da Zona Euro ter sido precedida de um encontro prévio entre Merkel e Sarkozy e de nele terem também formalmente participado os representantes do capital financeiro e dos grandes bancos da União Europeia. Em conformidade, a decisão do Fundo Europeu de Estabilização Financeira poder comprar directamente dívida dos Estados, no chamado mercado secundário, traduzir-se-á, na prática, na transferência de dívida pública detida pela banca para o sector público, isto é, para as costas dos povos da Europa.
Igualmente grave são os novos passos dados no sentido da criação de autênticos protectorados no seio da União Europeia e de novas formas de colonização económica. A transferência para estruturas supranacionais da possibilidade de gestão directa dos fundos estruturais da União Europeia atribuídos à Grécia, representam uma inaceitável e perigosa ingerência.
6. O PCP reafirma que a actual situação é inseparável da natureza do capitalismo, do processo de integração capitalista na União Europeia e no Euro – para cujas consequências o PCP sucessivamente alertou - e que o enquadramento da situação em que se realizou esta Reunião da Zona Euro é a prova inequívoca de que o processo de concentração e centralização de poder económico e político desencadeado em nome do combate à crise, as políticas contidas na “governação económica” e no “Pacto para o Euro mais” e os chamados pacotes de resgate financeiro não só não resolveram qualquer dos problemas económicos e financeiros no espaço da Zona Euro, como os aprofundaram vertiginosamente. As suas terríveis consequências estão bem à vista e não se limitam aos países alvo da ingerência externa, confirmando o carácter sistémico desta crise e que é indissociável do aprofundamento da crise estrutural do capitalismo.
7. Independentemente da análise detalhada das medidas tomadas nesta reunião, o que sobressai e se evidencia, é a incapacidade estrutural de responder à crise e de superar as contradições em aprofundamento. A natureza e as opções que presidem mais uma vez à forma como a União Europeia reage à crise, são elas próprias – como o PCP repetidamente afirmou – sementes de novas e mais profundas crises.
Por mais que o governo português e as potências da União Europeia queiram esconder, a resposta aos gravíssimos problemas exige o fim da liberalização dos movimentos de capitais, dos paraísos fiscais e o efectivo combate à especulação; a baixa da taxa de referência do BCE; o fim dos mercados secundários e dos seus títulos especulativos ; a alteração dos objectivos e funcionamento do BCE; a substituição do Pacto de Estabilidade por um programa de emprego e desenvolvimento económico; a abordagem corajosa e responsável sobre o futuro do Euro e da UEM; uma profunda revisão da política económica da União Europeia visando a resolução de problemas comuns a vários estados apostando no desenvolvimento dos seus sistemas produtivos, numa rápida e sólida estratégia para a criação de emprego e aumento do poder de compra dos trabalhadores e dos povos.
Apelando à intensificação da luta dos trabalhadores e o povo português, o PCP reitera que a real solução para actual crise reside num questionamento do actual rumo e Tratados da União Europeia e numa total inversão das políticas económicas e sociais. O PCP entende que o caminho de uma efectiva renegociação da dívida pública, da recusa das medidas contidas no programa de agressão e intervenção externa, da defesa dos direitos dos trabalhadores e do povo português e da valorização da produção nacional, é aquele que, no quadro de uma política patriótica e de esquerda, constitui a única alternativa para evitar o desastre e afirmar uma via soberana de desenvolvimento e progresso social.